domingo, agosto 16, 2026
Ansiedades
a sua morte foi definidora de tudo.
de cada enxadada que pensávamos que abria caminho, mas cavava buracos e mais buracos.
começamos tropeçando, uma vez aqui, outra acolá. e tentávamos e procurávamos e caminhávamos. e começamos a cair.
a cada som de batida no solo, buscávamos riqueza de vidas outras que não as nossas, do pulsar da terra fértil que dizíamos desejar.
e encontrávamos chão vermelho duro e cascalho que ensaiava quebrar o metal das ferramentas e nos estraçalhava.
sua morte, imaginei, seria eventualmente enterrada junto ao seu corpo e as pulsões e desejos fluiriam e que as margens cavadas seriam capazes de controlar os caos dos filhos dos filhos de outroa filhos.
que estaríamos sentados ao leito e lembraríamos uma e outra vez quem éramos.
só que a sua morte foi definidora de tudo.
da tortuosidade que criamos em locais de linhas retas.
dos ódios que causamos. dos ódios que transformamos em colos em que deitamos nossas cabeças e deixamos invadir o sono e os sonhos - quando existiam. (será que era real?)
sua morte foi definidora do passado. a memória só se mantém se repetida, seja com a fala, seja com os olhos. com o encantamento daquilo que era e também crescia.
e que definhou e definha e definhará como a angústia sentida nos ouvidos como se fossem sons altos e agudos, quase insuportáveis.
a sua morte foi definidora de tudo.
das verdades que já estavam à mostra e que nos recusávamos a aceitar, dos afastamentos inevitáveis que tentávamos fingir burlar.
todoa nós caimos nas valas que fizemos e morremos como a tampa que fecha antes do solo desmoronar.
a morte é o fim da memória
não digo aqui algo novo. não atesto descobertas, não indico caminhos recém-descobertos. o que sei é que a morte de outrem é o fim da nossa memória.
existir junto é relembrar constante. ao final da vida dos meus, acaba a minha vida também.
