segunda-feira, agosto 31, 2020

Saudades

a lágrima, a garganta, a falta. marcam no calendário dois anos. 24 meses sem sua presença. te queria aqui. ainda que fosse para só mais um único café da tarde.

sexta-feira, agosto 28, 2020

Aniversário de namoro

As violências nos destroem de maneiras inimagináveis. Alguns pequenos gestos são ignoráveis. A gente deixa acontecer porque as demandas do mundo se sobrepõem. Porque sabemos que a violência vem de todos os lados. Ignorar é tentar manter-se sã. Depois, as feridas passam a abrir. E questionamos por que, em vez de pomada cicatrizante, antissépticos, mertiolate, a gente passa limão. Com sal. E elas se abrem ainda mais. E a gente arruma justificativas. Somos humanos, erramos, quem não erra? E a ferida não fecha. E vem o primeiro murro. E o primeiro roxo. E aí, as portas quebradas e a vida destroçada pelas entranhas. Parece que o mundo puxou de dentro o intestino e rasgou pela garganta. O sentimento é a vergonha. Depois, a gente tenta se ajustar como dá. Mede daqui, esconde dali, fala com ressalvas. Mas algumas coisas continuam: o afeto, o apoio, manter-se junto. Sempre. Promessas. Falácias contadas como quem debulha o milho. Um por um e, ao mesmo tempo, aos montes. O sentimento? A culpa. Nesse ponto, não tem mais volta, senhoras. Ignorar já não existe. Porque os gritos ecoam na esperança que a pessoa te ouça. Não é que alguém ouça. Aquela pessoa. Aquele sujeito. Aquele ser. Porque quer-se ser junto. Ainda. Mas não tem mais volta. No ar, a dúvida. E o caminho permanece tortuoso. Será que é inadequada? Será que não acerta? Quem se é no mundo senão o sujeito que não serve nem pra ser objeto. Abjeto. Não serve nem pra ser desprezível. O fim? Não se sabe. A dor caminha. A violência. A descrença em si. O não perdão. O que quer, fica bem claro, é que não se tenha ninguém, porque o outro não tem ninguém. A condição é a violência. A violência dilacera em pedaços que não sabíamos ser possível. Porque ela é a regra. É a medida. Do outro para ela. E de ela para o mundo. Nada será mais como podia ser.

quarta-feira, agosto 26, 2020

Dia de mercúrio

caminhar implica em arquitetar e decidir. como me estendo a tal ponto de ficar em pé? em que seguro para não desequilibrar? a perna direita primeiro? ou a esquerda? se pisar com a ponta do pé, quem vai ouvir? eu vou cair? traçar caminhos implica em pequenos atos de coordenação fina: pegar o papel (imaginário, até) e mapear os pequenos pontos. retomar na memória os passos já dados. ter em si e desenhar o que virá. abrir caminhos implica em colocar em ação o decidido, o pensado, o calculado. abrir caminhos é ter a força de ceifar o mato, trilhar o chão de terra batida. rastelar o que ficou para se ter melhor noção do que se fez. caminhar implica em decidir o movimento. e movimentar é saber que não se está preso. (eu precisei transformar dor em força e ódio em movimento).

quarta-feira, agosto 19, 2020

o sol que não se esconde nas nuvens

e encontra-se quando ilumina outrem. sabe que conseguir que a luz toque as sombras não pode fazer com que perca seu próprio brilho.

terça-feira, agosto 11, 2020

os dizeres que não precisam ser ditos

quando eu decidir ir embora, com que cores pretas pintarei o horizonte? quando eu decidir ficar, quem rirá de mim?

terça-feira, julho 28, 2020

se espero calada e tranquila é porque sei que meu café preto e amargo (como a vida) esfriará e, quando o calor não existir, eu também não mais estarei aqui. (a trilha é rodrigo alarcon - lado vazio do sofá).

segunda-feira, julho 27, 2020

pausas

se todas as palavras fossem uma só, seriam tempestade. o que vejo no horizonte é a tempestade gerada e gestada dentro de mim. criei, com cores pesadas e brutas, um céu que destoa do brasiliense nessa época do ano. exagerei nas cores, transbordei na água da tintura e com toques de algodão sequei o azul escuro que se mancha e suavemente clareia chegando à borda do infinito onde ainda enxergo. se todas as palavras fossem uma, seriam solidão? deixo pairar a dúvida. para que seja possível respirar com menos dor, que a existência possa dar-se pausas para sentir e para o pensar. deixo a dúvida porque não há mundo sem ela, porque a certeza fecha, por vezes, mais portas do que abre. deixo a dúvida porque encontro caminhos há tempos para que escoem as águas das minhas tempestades. essas, que aparecem agora na tentativa de me amedrontar. caminho. olhos ainda límpidos. semblante preocupado, afinal, vem a chuva para lavar o rosto, mas que corre sempre o risco de alagar meus espaços e ceder, de novo, à solidão. hoje ainda não é dia de desabrochar. há águas porvir. devir.

quarta-feira, junho 10, 2020

Todos os olhares se viram para mim. Falada, jogada, colocada em um lugar distinto daquele ao que pertenço. Pertenço a mim? Ao imaginário sobre aquilo que me tornaria? Qual é o espaço em que caibo se não caibo em mim? E sou deslocada, ressituada, manejada ao ódio daquilo que já fui. Os olhares se viram e os dedos apontam para mim. Eu re-existo pelo outro.

segunda-feira, maio 13, 2019

O dia que o capitalismo acabou comigo dentre outros dias

Dia das mães. Depois de passar, quem sabe dá pra escrever? Para pensar? Para parar de chorar? Não me lembrava que seria dia das mães. Mas ali, no fundo cerebral do esquecimento, nada fica. E a gente toma decisões burras para que o baú se abra e saiam os ventos dos dias das mães passados. E futuros. Mas que decisão equivocada? Ir ao shopping. Sim. Me dei conta que a calça de ginástica já não dava pra ser usada e falei: vou aproveitar essa tarde de sábado pra dar um pulo ali no shopping. Que grave arrependimento. Todos os espaços gritavam: dia das mães. Qual o estilo da sua mãe? O que sua mãe gosta? Afetos bons, afetos ruins, pensava que "pelo menos, essa não será mais uma preocupação". Afinal, dona Geni era uma mulher impossível de agradar com presentes. 100% das vezes, sinto que errei, que erramos. Melhor não precisar comprar ou fazer nada, certo? Nem se cozinhasse seria bom porque ela detestava minha comida - não só a comida, mas sinto que detestava o processo de me ver cozinhar também. A comida mais detestada por ela, posso listar: risoto. O resto, tinha um senso crítico notório: qualquer coisa não feita por ela seria inevitavelmente alvo de comentários taticamente posicionados para mostrar que eu (e qualquer uma de suas filhas, especialmente) poderia ter feito melhor. Então, antes não ter que me preocupar mais com dia das mães. Há males que vêm para o bem, dizem por aí. Aí reside o equívoco da mente enlutada. Ainda que todos os defeitos sejam listados, rememorados, trazidos à baila para proteger um pouco a noção de que é possível viver após a perda, estou lá me pegando a olhar vitrines de sapatos e de bolsas (o gosto por alguns objetos é genético? deve ser!) pensando o quanto ela adoraria essa nova coleção outono/inverno breguíssima de tons de vinho, marrom, beges e florais. E a compra de 3 camisas polo e duas calças leggings se transformou em uma caminhada de mais de 3 horas em um prédio lotado de pessoas felizes e preocupadas, correndo com os últimos acertos pro dia seguinte. E não há racionalização de data que conseguisse me afastar de entrar em lojas e me pegar experimentando roupas que sabia que detestaria e imaginava já o comentário de minha, às vezes, sábia mãe sobre o bom gosto ser questão de bom senso e não de riqueza. E saber que minha mãe adoraria a calça azul meio social que experimentei, mas detestaria o macacão que me deixou ainda mais gorda. E, sim, demorou anos para que ela parasse de falar que eu estava fora do peso, gorda, que deveria emagrecer. Anos de custos emocionais e de muita conversa sobre feminismo. E palavras que não saem da cabeça de jeito nenhum. Passado o dia das mães, martelam uma série de coisas dentre crises de ansiedade, dores musculares do ioga, notícias que destroem minha possibilidade de felicidade no trabalho, ruínas de uma izis que já foi (ágil, estratégica, eficiente, crítica, leitora). Entre cartazes de feliz dia das mães, a racionalização tá lá: família é uma convenção social que gera obrigatoriedades e que não necessariamente é o melhor. Aí, a obrigatoriedade volta e se renova: esse tipo de família é convenção social que gera obrigatoriedades em momentos que eu nano queria - e ninguém deveria - ter que resolver, ter que pensar. Entre cartazes de feliz dia das mães, e posts de questionamento, e vidas que se esfacelaram e se refizeram na maternidade, tem o luto. um luto que engasga a garganta e que quer esvair-se em lágrimas e gritos e mais lágrimas de qualquer jeito. enquanto eu tenho que seguir o ritmo desenfreado do mundo de trabalhadora em que não dá simplesmente para ignorar o dia das mães ou faltar trabalho pelo ódio que corrói as veias.

domingo, dezembro 30, 2018

Retrospectiva(s)

Em janeiro, estava viajando com mãe, Eduardo e sobrinha. Conhecemos Colônia e Berlim. Tomamos muito vinho quente. Fomos a uma ópera. Briguei com minha mãe. (Arrependimentos). Em fevereiro, comecei um novo emprego. Fui convidada pra coordenar o curso de Serviço Social do lugar em que trabalho. Topei o desafio sem entender bem o que precisava fazer. Fiz. Organizei eventos, atendi estudantes, chamei pra mim a responsabilidade de melhorar curso. Em março, teve muita roda de conversa. Muita rua com mulheres fascinantes pelo diálogo, pelo olho no olho, pela lua cotidiana. Teve Guará, teve aeroporto. Teve também a dor e o medo depois de ver as notícias sobre Marielle. Não sei o que fiz em abril. Serve isso como retrospectiva? A falta de memória? Em maio, teve dia das mães e voltamos a conversar. Ela contou da saga em exames pra ver o que era aquela dor no quadril. Teve também meu aniversário. 33. Teve amigos na beira da piscina, churrasco, amor. Teve sol. Em junho, teve caos. Teve fim de semestre. Teve muita reunião, teve muita ausência de casa. Teve eduardo passando na seleção do GDF e voltando ao mundo do trabalho depois de muito tempo. teve acompanhar minha mãe em hospitais. Pronto socorro, sem respostas. Teve fim da pós-graduação. Lembrei de abril! teve casamento mais maravilhoso que eu já fui. Teve nós como madrinha e padrinho. Minha primeira vez como madrinha. Teve reforço de laços e novos compromissos. teve amigos, teve amigas. Teve amor. 26 de abril e a gente animado, corre com o gelo, com a cerveja. E veio julho. planejamento no trabalho, teve a primeira internação da minha mãe. teve o resultado dos exames mais específicos 10 mil vezes a mais do que o esperado. câncer. Não fala pra ela, espera. Guarda pra si. Vai na casa dos amigos, engole o choro. Vê a copa. Vê a copa. Aí, veio agosto. O mês do desgosto, que fala? O mês que Eduardo se entristece. Foi a morte a mãe dele também, afinal, há quase uma década. O mês de correria, interna, dorme, sai do hospital, passa mal, não consegue andar, volta. interna. suspeita. carcinomatose meningea. Agosto, o mês que não acabava: volta, interna, sai, mais exames. mais dores, mais tristeza, mais cegueira, sem andar. cai do meu colo, me suja inteira, achei que ia morrer nesse dia - ela e eu. esconde o choro, chora no posto de enfermagem pra ela não ver. agosto e lê. muito artigo científico, expectativa de vida, sobrevida. carcinomatose meningea. pouca sobrevida. pouca qualidade. sem tratamento. tratamento intratecal. quimo. radio. vale a pena? escolhas. reuniões. famílias. aniversário do irmão, mãe de andador, dor. segura, faz tratamento. chega no outro dia, silêncio quase total. adormece. teve convulsão de novo. médico, correria, trauma. dor. começa a respiração forte, o ronco. o som da morte. eu já sabia. Eu não falei nada. só liguei: vem se despedir. vem se despedir. se despede. te amo. às vezes. te amo. sempre. dia 31 chega. dor. correria. documento. terreno, tumba, velório. ligação. pizza - amizade. amor. setembro: enterro. setembro, suspenso. setembro, documentos, partilha, inventário, casa, joias. despedidas. família, fraturas. fissuras que se abrem em abismos. abismos. choro. abandono. amizades que não se consolidam ou não se repetem. ex amizades. pranto. depressão. demissão. outubro. viagem. amor, aniversário adiantado. 11 dias. neve. frio. amiga. vontade de chorar. mercado orgânico, café. chai latte. volta. calor. calor, calor. gato magro. veterinária. doença. interna. de novo? mais internação. remédio. choro. quase morre. quase morro. quase morre. novembro. recupera. estável, remédio segura. âncora. aula, aula, aula. muito vinho, cerveja, pizza, gordura. engorda. engorda, quem se importa? sobrevive. ama, mas não fala. não tem o que falar, não tem lágrima pra chorar. não sei lidar. não tem mar. tem amigas. parceria. amor. e vem dezembro. muito trabalho. muito. kevin. abriga. não sabe se fez certo. abriga, luta, trabalha, esconde o choro no trabalho, esconde o choro na ligação da operadora de telefone, segura o choro na fila da secretaria de fazenda, na fila do cartório. segura. e chora. e ignora. e termina dezembro. sem saber como começou o ano que nunca terminou. e virá janeiro. e ainda será 2018 em mim. repete. repete.

sexta-feira, novembro 02, 2018

Há dois meses do falecimento de minha mãe, escrevo esta carta com o peito aberto. Devastado pelos acontecimentos dos últimos anos, dilacerado pelos últimos dias. Escrevo como uma reverência a tudo que aprendi com ela, com os erros e com os acertos. Escrevo porque caminhei com ela e aprendi a falar daquilo que me aflige. Mas também porque minha mãe foi minha maior "doutrinadora". Em tempos de acusações chulas, de propostas cerceadoras da liberdade, de ataques à produção crítica de conhecimento, essa carta é meu lamento - e meu apelo. Minha mãe faz falta: era com ela que eu discutia assuntos profundos sobre a vida social, sobre os tortuosos e estranhos lugares pelos quais eu precisava percorrer, sobre as dores e as felicidades de dias de trabalho. Minha mãe nunca foi minha confidente, mas foi minha educadora, minha provocadora, minha possibilidade de ver e fazer o mundo. E ela me mostrou o básico daquilo que hoje sou, penso e defendo. Quando criança, lá pelos meus 7 anos, as professoras e professores daqui do DF decretaram uma das maiores e mais intensas greves já enfrentadas. Foram cerca de 3 meses de paralisação, mobilizações, assembleias. Minha mãe foi intensa participante. Embora não fosse sindicalizada, acreditava que só conseguiriam aumento de salário e melhoria nas condições de trabalho - muito precárias - se a greve fosse bem sucedida. Eu, que estava na primeira série e estudava em escola pública, também estava em casa porque as professoras estavam em greve. O resultado: minha mãe me levou em muitas e muitas assembleias. Algumas delas, duas vezes por semana. E me explicava o que estávamos fazendo ali, quais eram as condições de trabalho que ela tinha, a briga por aumento de salário. De acordo com ela, naquela época, ela quase pagava para trabalhar. Eu comecei a entender ali a importância de uma greve para minha educação. Talvez eu tenha sido, assim, umas das poucas estudantes que nunca reclamou de períodos longos de paralização - e foram muitos ao longo da minha vida escolar. Aprendi ali a protestar quando não tínhamos professor de inglês, de química e de matemática. Ou de reclamar quando a licença maternidade de professora não gerou sua substituição. Foi com minha mãe que também aprendi que eu não deveria ser humilhada em sala de aula por não partilhar a mesma fé que a professora. Na quinta série, a professora de ensino religioso demandou que levássemos uma Bíblia. Na minha casa, não tinha uma. Ao chegar em sala de aula, a professora perguntou que tipo de casa demoníaca eu vivia para não ter uma Bíblia. O que ela não sabia é que minha mãe era colega dela: trabalhavam juntas todas as noites. E desde esse episódio, minha mãe me fazia levar o Evangelho Segundo o Espiritismo - fé que minha mãe professou durante cerca de 40 anos - mas que eu abandonei depois - para um misto de coisas: estampar que poderíamos falar de outras crenças naquele espaço e para provocar a colega que chamou que comparou minha família ao inferno. De modo similar, já no 2º grau, supostamente eu teria o direito de escolher não cursar ensino religioso. Mas, minha escola não tinha atividades que substituíssem essa aula. Aí, eu não poderia ficar nos corredores e precisava assistir às aulas. O professor, com o tempo, se irritou muito com minhas perguntas, com meu sarcasmo adolescente e parou de me chamar pelo nome. Ele fazia chamada e me chamava pelo número: 14. Eu carreguei esse número os 3 anos do 2º grau. Minha mãe queria que eu não criasse confusão com ele. Então, eu comecei a matar várias aulas do professor. Eu era uma aluna razoável e, no 1º ano, fui aluna destaque duas vezes. O professor ficou chocado e disse que não entendia muito como eu poderia ter sido reconhecida pelo meu desempenho. Eu continuei assistindo às aulas eventualmente: meu walkmen estava sempre ligado - minha mãe desaprovava, mas não reclamava disso diante da postura do colega dela. Eu também aprendi com os erros da minha mãe. Como quando ela contratou uma empregada doméstica e insistiu que a condição para o emprego era a pessoa não engravidar. Quando ela "deixava" as contratadas estudarem e quando uma dessas mulheres foi ao Centro de Saúde e conheceu uma assistente social que explicou a ela a importância de minha mãe assinar sua carteira de trabalho. Foram dias tensos, de muitos conflitos, mas ali eu aprendi que a segurança trabalhista estava além do teto que minha mãe dava e do salário que ela conseguia pagar. Ali eu comecei a perceber as contradições do mundo: uma trabalhadora que lutava por direitos, mas negava a outra trabalhadora muitos deles. Eu aprendi com minha mãe que relações de gênero são desiguais quando meu pai estava na Guerrilha do Araguaia e ela foi contra as ordens dele e se matriculou em curso supletivo para estudar. Fez todo o segundo grau escondida e só contou para ele quando tinha passado no vestibular. Ela cursou História, mas sempre disse que queria ter feito Economia. Meu pai, de acordo com ela, não concordou porque não era uma profissão feminina. Ele, então, fez vestibular para Economia, mas não entrou. Vejam que ironia. Ele cursou Geografia. Minha mãe passou no concurso da antiga Fundação Educacional e trabalhou em Ceilândia, num colégio que era chamado de a boca do diabo pelos alunos e professores. Depois, passou pela Candangolândia, Núcleo Bandeirante, Plano Piloto, Cruzeiro. Eu fui com ela ela várias dessas escolas - a não ser a de Ceilândia, já que eu ainda não era nascida - e vi de perto o trabalho que ela tinha. Corrigi com ela muitas provas durante finais de semana. Ela tinha carga horária de 40 horas, preparava aulas e ainda precisava preencher diários e colocar notas. Ela me dava o gabarito e eu a ajudava a corrigir. Dias e dias de trabalho cansativo. Ela me ensinou que, às vezes, a gente acha brechas e faz o melhor com as oportunidades que temos. E também me ensinou que, às vezes, a falta de oportunidades é frustrante, castradora, e cria feridas profundas que nem o tempo é capaz de curar. Uma delas foi sua frustração profissional. Todos os anos, perto do Natal, minha mãe me levava no lar dos pequeninos, um abrigo para crianças e adolescentes que era dirigido por uma grande amiga sua, Ilma. A Ilma também morreu esse ano, alguns meses antes da minha mãe. Acredito que tenha sido de uma dor imensa para ela ver a amiga de tantos anos falecer depois de uma luta incansável contra um câncer de intestino, luta que durou dez anos. Antes de adoecer, Ilma e minha mãe faziam a festa de Natal das crianças que moravam no abrigo. Eu ia para me divertir: brincava com todo mundo, ajudava a colocar a mesa. Minha mãe me ensinou que ela estava ali pela religião, mas que eu era igual àquelas crianças. Que os brinquedos que eu tinha e que elas deveriam ter seriam os mesmos, comprados nas mesmas lojas. Que nós habitávamos o mundo em pé de igualdades. Essa foi outra contradição: minha mãe, como espírita, acreditava em certa desigualdade espiritual, na escolha pela desigualdade. Foi uma das grandes disputas morais que tivemos ao longo da vida dela. Talvez, isso fique para uma outra carta. Ainda assim, ali, eu e todas as crianças parecíamos iguais. Ou era essa a tentativa de ensinamento. Eu aprendi com minha mãe que quem não gosta de escola, não reprova, que quem é preguiçoso (e eu sou) faz tudo logo de uma vez. Eu aprendi com ela que ler era a melhor forma de questionar e que a escola era para isso: me mostrar outras formas de ver as coisas: com professoras, diretoras, colegas, servidoras variadas, merendeiras. Que a diversidade é boa e que a escola é para mostrar outras perspectivas que as famílias não conseguem. Que a escola é local de conhecimento, de questionamento e de muitos conflitos. Ela me repreendeu quando eu fiz minha professora de português do 3º ano chorar - mas ria comigo depois dessa história meio tragicômica. Ela também me incentivou a fazer o que eu quisesse: Pedagogia, Serviço Social, Engenharia Civil. Qualquer escolha seria minha e ela não influenciaria para, se eu me arrependesse, não pudesse responsabiliza-la pela minha decisão. À época, eu fiquei muito chateada com essa fala. Hoje, agradeço muito por ela ter deixado eu trilhar meus próprios rumos. Com isso, eu agradeço à minha mãe pelos acertos e pelos erros. Mas também agradeço por ela nunca ter me negado a leitura de qualquer livro, de ter me mandado entregar comida com a mão direita quando Bob Marley, rapaz em situação de rua que vivia próximo à minha casa, pediu que eu assim fizesse. Me ensinou a escutar as histórias das pessoas, me ensinou que podemos fazer um mundo de menos sofrimento. Que podemos segurar uns aos outros, embora também tenha me ensinado com muita dor algumas dessas lições. Eu agradeço à minha mãe por tudo isso e agradeço à escola por dar nome aos meus incômodos, por me ensinar a compreender aquilo que minha experiência pessoal me mostrava que era ruim para coletivizar lutas. Se eu fui doutrinada, em tempos de escola sem partido, a doutrinação começou em casa. A escola - do pré ao ensino superior - me ensinaram a entender, explicar, pesquisar, produzir. Em tempos de crise nas verdades, em que as pessoas não reconhecem que simplesmente podem ter feito errado, eu agradeço à minha mãe por não ter me deixado desistir quando reprovei em duas seleções de doutorado na entrevista, quando perdi uma das minhas melhores amigas, quando um dos meus gatos sumiu, quando terminei namoros, magoei e fui magoada. Principalmente, agradeço pelo pensamento crítico nesse dia de finados. Mãe, amo você. Muito.

quinta-feira, agosto 16, 2018

Agosto

É agosto e chove. Talvez São Pedro inveje minhas lágrimas.

Agosto 2

É agosto. Brasília, amarelada, esfumaçada, se assenta. Concede um rio nas ruas alagadas pela chuva inesperada. Olho pela janela. Brasília, em seca, chove para lavar o pranto.

domingo, janeiro 15, 2017

Em 2005, escrevi "há sempre uma lágrima entalada na minha garganta: todos se recusam a me olhar". Lá, o conhecido, o que permanecia, o palpável e seguro me incomodavam, me crucificavam a alma. Os azulejos que eu conhecia todas as manchas, os desenhos que se formavam nas madeiras do forro do teto, o sair e o entrar sempre nos mesmos horários. A rotina me enlouquecia. Hoje, o sentimento me acompanha: a lágrima está aqui como se fosse lança atravessada no peito sob cuidados médicos cotidianos. Às vezes, dói mais do que o analgésico consegue segurar.
Há sempre um medo constante. Ou melhor, uma angústia constante. Uma pequena frustração que, às vezes, se sobressai. Um deslize que parece uma grande queda. Uma rachadura quase invisível que decide aparecer quando a água é aquecida. Um abismo sob o tapete com o qual se toma muito cuidado para não cair. Uma fenda que nunca é esquecida e que vez ou outra faz tropeçar. O maxilar que se trava quando, ao acordar, o céu está nublado. Uma chuva fina e fraca que engana quem precisa caminhar pela cidade. Uma dor atrás do olho que não chega a ser enxaqueca e nunca passa. Um aperto no peito que nunca se esvai. Uma lição clara, estonteante e miserável sobre a vida.

segunda-feira, setembro 19, 2016

Há um mundo aqui, feito de água. Ele se chama coração.

domingo, maio 22, 2016

[Das nostalgias aniversariantes] A vida nos perdeu Por entre bares e sinucas e cervejas baratas Que se transformaram em livros e cartas e jazz baixinho nos lobbies e nos elevadores E reduzidos a Ois, cansados, distantes, pelos centros da cidade e pelas cidades sem centro. A vida nos perdeu, Pelos cabelos pretos lisos que se tornaram cacheados E pelos vermelhos que cada vez mais voltam ao tom castanho - quem sabe, claro? A vida nos transbordou e nos reduziu e nos relegou Ao esquecimento E, às vezes, ao relembrar pequeno, quando, talvez Nick Drake toca sem querer. A vida nos achou E nos perdeu E nos doou Para outros azulejos. Outros horizontes.

quinta-feira, março 17, 2016

[é como se uma agulha fosse lentamente penetrando a gengiva: aguda e radial. se espalha aos poucos pelo resto da boca e desce, como a sensação de seco para, de repente, transbordar.] . . . https://www.youtube.com/watch?v=DnX7PtkRdjM

quarta-feira, março 05, 2014

eu me apaixono perdidamente pelos amores antigos, aqueles passados, rasgados. empoeirados, me enamoro pelo encontro que perdemos na esquina, pela cerveja não tomada, pelo riso perdido, pela frase nunca pronunciada. me apaixono todos os dias pelos céus cinzas e pelos amarelos que nunca vimos juntos. pela boca não beijada, pelo toque não dado e pelo suor que nunca escorreu. e eu me apaixono enlouquecidamente pelos amores antigos, mesmo aqueles que sequer foram amores. talvez o enredo certo seja essa ficção controlada que me preenche, me sufoca e, logo em seguida, transborda.

domingo, julho 21, 2013

e acordo pensanndo em seus olhos
e deito pensando no passado.

pois não estamos a mais de um passo
do abismo.

porque não estamos a mais de
um passo
do fundo.


e acordo pensando no seu beijo
e seu toque
e choro porque não recordo

meu nome.

pois estamos a um dia do fim
do mundo.
a um passo do fim
da solidão.