quinta-feira, fevereiro 05, 2004

quarta-feira, fevereiro 04, 2004

E eu falo com todas as letras
Falo alto:
que as ruas se emaranhem
para que assim, possamos rondar
Sem a menor preocupação de ir
E não chegar!
soluço

Monólogo



ela largou a antropologia. eu não larguei nada. a vida inteira, não completei nada, mas não larguei nada. ela dá aulas de francês e não tem as mesmas paranóias que eu. eu voltarei a fazer inglês e mal sei ler em espanhol - e tenho as mesmas paranóias que eu! ela faz pedagogia, ao invés de psicologia, mas adora o que faz, e acha que odiaria o que faria. eu sou daquelas indecisas que uma hora quer cinema, outra o que tenho, 5 minutos depois não quero nada, depois quero antropologia, depois que artes, depois quero que tudo se exploda. ela é publicitária e marinheira, e ainda tem tempo de escrever. eu sou perturbada e preguiçosa e ainda não me sobra tempo! ela tem planos para as palavras. eu, a cada dia que se passa, sou consumida pelas palavras - não faço planos para elas, nem delas.

eu entro em um monólogo constante que se volta contra mim. e ela disse que nossa imaginação é sempre favorável a nós.
enquadrada. enjaulada. machucada. maltratada. calada. amarrada com pequenas tiras de couro que correm meus pulsos. encurralada. jogada em uma cela suja dentro de mim mesma, torcendo para sair, rezando para que alguém me tire daqui. atormentada pelas dores que escorrem como a cor vermelha que sai de meus poros. escondida em um buraco em que nem eu sou capaz de me achar. perdida. perdida em um labirinto infinito. perdida dentro de mim. labirinto dentro de mim. perturbada pelos ecos dessas paredes indestrutíveis.
Já não choro

Na expectativa da possibilidade remota
de que sem lágrimas
não chore mágoas.
E se eu não me devoro pelas
teorias psicanalíticas
E se eu não me abalo pelas
dores mais horrendas
E se minhas lágrimas já não
escorrem como antes
E se meus seios estão fartosde serem
represas de minhas próprias mágoas
E se meus desejos não
se confundem com eu mesma
E se eu já não sou capaz de
amar
calar

Se eu sou mais um erro
mais uma desgraça
Se não me porto como sensata
Se me deixo com a vida
E paro a luta

Assim me chamo: perda!

E que o horror que vejo não seja motivo para que perpertue-se o inerte. Que o ódio não seja o oposto do amor e que assim, sejamos capazes de intolerar a intolerância, e criemos a possibilidade de não nos sentirmos na obrigação de criar dualidades, como se fosse impossível que as coisas sejam antagônicas e complementos ao mesmo tempo. Que a falta de confiança que existe não seja motivo suficiente para a falta de argumentação sobre a dor, sobre a vida e, principalmente, sobre as escolhas!
Amanhã testarei a possibilidade não ser uma pessoa frustrada e passar no psicotécnico. Preparem seus carros, porque, quem sabe, vou ter carteira de autorização para provocar acidentes.. - opa! - de motorista...

segunda-feira, fevereiro 02, 2004

Meu amor é um menino bem bonito repleto de cores em seu coração. Enquanto eu fico no preto-branco-cinza, ele completa a caixa de 12 cores com seu sorriso. Meu amor é um menino que não me entende e que eu não entendo. Meu amor é um menino que me entende e que eu entendo. Leio os pensamentos, às vezes, e peço para que me traga iogurte de côco no copo. Meu amor dá mordidas no meu pão depois que termina o dele, e eu me incomodo, mas depois passa. Meu amor não tem medo de escuro e nem medo da varanda. Meu amor é preguiçoso, mas a gente vai levando. Eu gosto de filmes, ele também. Meu amor é um oposto-complemento: é a dialética de ser!
Márcio,

hoje eu andei na chuva e pensei em como os pingos caindo são demasiado bonitos e formam um som quase angelical. Aí quis fugir até o correio mais próximo, mas nessa cidade tudo é longe e o correio mais ainda. De qualquer forma, escrevi cartas mentalmente e preenchi de cores belas meus pensamentos atormentados pelo frio. Hoje faz frio e não se vende casacos no verão. Você sabe que isso é uma das grandes ironias da vida! Assim como chover um rio, como os de lágrimas, no dia em que decido sair do meu casulo.

Hoje eu andei na chuva, mas não consegui chegar muito longe. As águas estavam fortes e eu só conseguia pensar em como o som das gotas era perfeito como hábitos bonitos repletos de significados. Aí lembrei de você enquanto ouvia o som da chuva batendo em todas as coisas, aí pensei em fitas, aí pensei em músicas, aí pensei em grandes e pequenas cidades.
Foi então que desejei que não nos tornemos frios como o verão brasiliense!

E que tenho que criar mais hábitos!
Com todas as palavras, certinhas, me disse que queria que eu não tivesse existido. E eu deixei de existir. Como se tivesse me matado aos doze, desapareci em um raio de quilômetros.

Hoje não existe telefonema, e-mail ou carta. Só a certeza de que o que nunca foi não poderia existir.

, no dia 30 de outubro de 2003 :

Todos os meus sonhos se resumem à
Ilusão.

Se não há porquê lutar
Pelo quê viver
Ou chorar

De todas as coisas do mundo
O grito era o mais importante.

E todas as paredes, que vedam lágrimas
Que vedam imagens
Que vedam saberes
Acordam soluços
Projetam-se em mim
Como se solidão fosse sobrenome.

Todas as minhas noites
São preenchidas de vácuo de você.
E eu, com minhas mãos frias
Saio de mim como fugindo de um pesadelo
Eterno.
Etéreo.

As vidas já não me parecem promissoras
Quando eu era criança,
quem me dera ter morrido aos doze
Minha mente ainda não era ingrata.

Todas as minhas noites são brisas mornas enquanto quero frio.
Mas meu quarto não tem janelas como estas
E eu, presa em mim, não sei sair.

E todas as paredes vedam meus gritos,
Fraca, já não sei fingir.

domingo, fevereiro 01, 2004

Eu, por ele.
Querido,

desculpe-me pela demora das cartas. Ando sem querer escrever. Poderia inventar alguma desculpa, como a falta de papel, mas eu poderia escrever no cantinhos de outras cartas - aquelas para mim mesma - e mandar um pedaço de mim com um pedaço para você. Porém, meu amor, a mentira não compensa. Eu ando é cansada de tanta fadiga. E como eu pareço redundante: eu ando cansada do cansaço! Como um bicho-preguiça que demora anos para se mexer no galho da árvore. Eu ando cansada do cansaço. E parada por ele!
Meu bem, eu não ando escrevendo muitas cartas. Acho que estou cansada da distância. Não de você, hoje não sinto que estás distante. Distância de mim! E não há tinta suficiente em meu tinteiro para escrever todas as letras que saem de meus pensamentos doloridos pela falta de mim. Eu, que antes colocava culpa da solidão nos outros, descobri que a única culpada sou eu mesma. Sinto como se tivesse sido mutilada por minhas próprias mãos.

Meu amor, vou dormir pensando em seus braços. Para esquecer a saudade, e a falta de mim!

"E o que a gente faz quando as linhas já não bastam e a gente começa a escrever pelas margens. Quando ante os olhos até temos as imagens mas se desanimam as palavras? E quando começa a se formar no peito a semente de uma revolta que nunca irrompe em revolução e a gente acaba mastigando tampas de caneta enquanto se procura em frases antigas?"

roubado, descaradamente, da Ana.
São grandes monólogos
de solidão:
exposições frívolas
de vida escancarada.

Pequenos rastros de falta.
E era como se todos os símbolos
se colassem a minha pele
- e se transformassem em cicatrizes!

Fitei meu corpo inteiro no espelho
E perguntei aos meus olhos o que viam
- não há o que se olhar, toda a dor...
podemos chorar!
O tempo não passa.

Arrasta-se como escravos
que carregam pedras.

A ampulheta
Manipula as areias.
O tempo não passa.
"e a rotina crescia como planta
e engolia a metade do caminho
e a mudança levou tempo
por ser tão veloz
enquanto estávamos a salvo

ficamos suspensos
perdidos no espaço

(...)

e era como se jogassem space invaders
perdendo mais dinheiro de muitas maneiras
vivendo num planeta perdido como nós
quem sabe ainda estamos a salvo?"
Queria comer comida chinesa.