[in]esperar
não há nenhuma história que me permita dizer que o céu é só feito de estrelas.
segunda-feira, março 09, 2009
Pelo dia 8 de março, por Marjorie Rodrigues.
"Dia 8 de março seria um dia como qualquer outro, não fosse pela rosa e os parabéns. Toda mulher sabe como é. Ao chegar ao trabalho e dar bom dia aos colegas, algum deles vai soltar: ”parabéns”.
Por alguns segundos, a gente tenta entender por que raios estamos recebendo parabéns se não é nosso aniversário (exceção, claro, à minoria que, de fato, faz aniversário neste dia). Depois de ficar com cara de bestas, num estalo a gente se lembra da data, dá um sorriso amarelo e responde “obrigada”, pensando: “mas por que eu deveria receber parabéns por ser mulher?”.
Mais tarde, chega um funcionário distribuindo rosas. Novamente, sorriso amarelo e obrigada. É assim todos os anos. Quando não é no trabalho, é em alguma loja. Quando não é numa loja, é no supermercado. Todos os anos, todo 8 de março: é sempre a maldita rosa.
Dizem que a rosa simboliza a “feminilidade”, a delicadeza. É a mesma metáfora que usam para coibir nossa sexualidade — da supervalorização da virgindidade é que saiu o verbo “deflorar” (como se o homem, ao romper o hímen de uma mulher, arrancasse a flor do solo, tomando-a para si e condenando-a – afinal, depois de arrancada da terra, a flor está fadada à morte). É da metáfora da flor, portanto, que vem a idéia de que mulheres sexualmente ativas são “putas”, inferiores, menos respeitáveis.
A delicadeza da flor também é sua fraqueza. Qualquer movimento mais brusco lhe arranca as pétalas. Dizem o mesmo de nós: que somos o “sexo frágil” e que, por isso, devemos ser protegidas. Mas protegidas do quê? De quem? A julgar pelo número de estupros, precisamos de proteção contra os homens. Ah, mas os homens que estupram são psicopatas, dizem. São loucos. Não é com estes homens que nós namoramos e casamos, não é a eles que confiamos a tarefa de nos proteger. Mas, bem, segundo pesquisa Ibope/Instituto Patricia Galvão, 51% dos brasileiros dizem conhecer alguma mulher que é agredida por seu parceiro. No resto do mundo, em 40 a 70 por cento dos assassinatos de mulheres, o autor é o próprio marido ou companheiro.Este tipo de crime também aparece com frequência na mídia. No entanto, são tratados como crimes “passionais” – o que dá a errônea impressão de que homens e mulheres os cometem com a mesma frequência, já que a paixão é algo que acomete ambos os sexos. Tratam os homens autores destes crimes como “românticos” exagerados, príncipes encantados que foram longe demais. No entanto, são as mulheres as neuróticas nos filmes e novelas. São elas que “amam demais”, não os homens.
Mas a rosa também tem espinhos, o que a torna ainda mais simbólica dos mitos que o patriarcado atribuiu às mulheres. Somos ardilosas, traiçoeiras, manipuladoras, castradoras. Nós é que fomos nos meter com a serpente e tiramos o pobre Adão do paraíso (como se Eva lhe tivesse enfiado a maçã goela abaixo, como se ele não a tivesse comido de livre e espontânea vontade). Várias culturas têm a lenda da vagina dentata. Em Hollywood, as mulheres usam a “sedução” para prejudicar os homens e conseguir o que querem. Nos intervalos do canal Sony, os machos são de “respeito” e as mulheres têm “mentes perigosas”. A mensagem subliminar é: “cuidado, meninos, as mulheres são o capeta disfarçado”. E, foi com medo do capeta que a sociedade, ao longo dos séculos, prendeu as mulheres dentro de casa. Como se isso não fosse suficiente, limitaram seus movimentos com espartilhos, sapatos minúsculos (na China), saltos altos. Impediram-na que estudasse, que trabalhasse, que tivesse vida própria. Ela era uma propriedade do pai, depois do marido. Tinha sempre de estar sob a tutela de alguém, senão sua “mente perigosa” causaria coisas terríveis.
Mas dizem que a rosa serve para mostrar que, hoje, nos valorizam. Hoje, sim. Vivemos num mundo “pós-feminista” afinal. Todas essas discriminações acabaram! As mulheres votam e trabalham! Não há mais nada para conquistar! Será mesmo? Nos últimos anos, as diferenças salariais entre homens e mulheres (que seguem as mesmas profissões) têm crescido no Brasil, em vez de diminuir. Nos centros urbanos, onde a estrutura ocupacional é mais complexa, a disparidade tende a ser pior. Considerando que recebo menos para desempenhar o mesmo serviço, não parece irônico que o meu colega de trabalho me dê os parabéns por ser mulher?
Dizem que a rosa é um sinal de reconhecimento das nossas capacidades. Mas, no ranking de igualdade política do Fórum Econômico Mundial de 2008, o Brasil está em 10oº lugar entre 130 países. As mulheres têm 11% dos cargos ministeriais e 9% dos assentos no Congresso — onde, das 513 cadeiras, apenas 46 são ocupadas por elas. Do total de prefeitos eleitos no ano passado, apenas 9,08% são mulheres. E nós somos 52% da população.
A rosa também simboliza beleza. Ah, o sexo belo. Mas é só passar em frente a uma banca de revistas para descobrir que é exatamente o contrário. Você nunca está bonita o suficiente, bobinha. Não pode ser feliz enquanto não emagrecer. Não pode envelhecer. Não pode ter celulite (embora até bebês tenham furinhos na bunda). Você só terá valor quando for igual a uma modelo de 18 anos (as modelos têm 17 ou 18 anos até quando a propaganda é de creme rejuvenescedor…). Mas mesmo ela não é perfeita: tem de ser photoshopada. Sua pele é alterada a ponto de parecer de plástico: ela não tem espinhas nem estrias nem olheiras nem cicatrizes nem hematomas, nenhuma dessas coisas que a gente tem quando vive. Ela sorri, mas não tem linhas ao lado da boca. Faz cara de brava, mas sua testa não se franze. É magérrima (às vezes, anoréxica), mas não tem nenhum osso saltando. É a beleza impossível, mas você deve persegui-la mesmo assim, se quiser ser “feminina”. Porque, sim, feminilidade é isso: é “se cuidar”. Você não pode relaxar. Não pode se abandonar (em inglês, a expressão usada é exatamente esta: “let yourself go”). Usar uma porrada de cosméticos e fazer plásticas é a maneira (a única maneira, segundo os publicitários) de mostrar a si mesma e aos outros que você se ama. “Você se ama? Então corrija-se”. Por mais contraditória que pareça, é esta a mensagem.
Todo dia 8 de março, nos dão uma rosa como sinal de respeito. No entanto, a misoginia está em toda parte. Os anúncios e ensaios de moda glamurizam a violência contra a mulher. Nas propagandas de cerveja e programas humorísticos, as mulheres são bundas ambulantes, meros objetos sexuais. A pornografia mainstream (feita pela Hollywood pornô, uma indústira multibilionária) tem cada vez mais cenas de violência, estupro e simulação de atos sexuais feitos contra a vontade da mulher. Nos videogames, ganha pontos quem atropelar prostitutas.
Todo dia 8 de março, volto para casa e vejo um monte de mulheres com rosas vermelhas na mão, no metrô. É um sinal de cavalheirismo, dizem. Mas, no mesmo metrô, muitas mulheres são encoxadas todos os dias. Tanto que o Rio criou um vagão exclusivo para as mulheres, para que elas fujam de quem as assedia. Pois é, eles não punem os responsáveis. Acham difícil. Preferem isolar as vítimas. Enquanto não combatermos a idéia de que as mulheres que andam sozinhas por aí são “convidativas”, propriedade pública, isso nunca vai deixar de existir. Enquanto acharem que cantar uma mulher na rua é elogio , isso nunca vai deixar de existir. Atualmente, a propaganda da NET mostra um pinguim (?) dizendo “ê lá em casa” para uma enfermeira. Em outro comercial, o russo garoto-propaganda puxa três mulheres para perto de si, para que os telespectadores entendam que o “combo” da NET engloba três serviços. Aparentemente, temos de rir disso. Aparentemente, isso ajuda a vender TV por assinatura. Muito provavelmente, os publicitários criadores desta peça não sabem o que é andar pela rua sem ser interrompida por um completo desconhecido ameaçando “chupá-la todinha”.
Então, dá licença, mas eu dispenso esta rosa. Não preciso dela. Não a aceito. Não me sinto elogiada com ela. Não quero rosas. Eu quero igualdade de salários, mais representação política, mais respeito, menos violência e menos amarras. Eu quero, de fato, ser igual na sociedade. Eu quero, de fato, caminhar em direção a um mundo em que o feminismo não seja mais necessário.
…Enquanto isso não acontecer, meu querido, enfia esta rosa no dignissímo senhor seu cu."
"Dia 8 de março seria um dia como qualquer outro, não fosse pela rosa e os parabéns. Toda mulher sabe como é. Ao chegar ao trabalho e dar bom dia aos colegas, algum deles vai soltar: ”parabéns”.
Por alguns segundos, a gente tenta entender por que raios estamos recebendo parabéns se não é nosso aniversário (exceção, claro, à minoria que, de fato, faz aniversário neste dia). Depois de ficar com cara de bestas, num estalo a gente se lembra da data, dá um sorriso amarelo e responde “obrigada”, pensando: “mas por que eu deveria receber parabéns por ser mulher?”.
Mais tarde, chega um funcionário distribuindo rosas. Novamente, sorriso amarelo e obrigada. É assim todos os anos. Quando não é no trabalho, é em alguma loja. Quando não é numa loja, é no supermercado. Todos os anos, todo 8 de março: é sempre a maldita rosa.
Dizem que a rosa simboliza a “feminilidade”, a delicadeza. É a mesma metáfora que usam para coibir nossa sexualidade — da supervalorização da virgindidade é que saiu o verbo “deflorar” (como se o homem, ao romper o hímen de uma mulher, arrancasse a flor do solo, tomando-a para si e condenando-a – afinal, depois de arrancada da terra, a flor está fadada à morte). É da metáfora da flor, portanto, que vem a idéia de que mulheres sexualmente ativas são “putas”, inferiores, menos respeitáveis.
A delicadeza da flor também é sua fraqueza. Qualquer movimento mais brusco lhe arranca as pétalas. Dizem o mesmo de nós: que somos o “sexo frágil” e que, por isso, devemos ser protegidas. Mas protegidas do quê? De quem? A julgar pelo número de estupros, precisamos de proteção contra os homens. Ah, mas os homens que estupram são psicopatas, dizem. São loucos. Não é com estes homens que nós namoramos e casamos, não é a eles que confiamos a tarefa de nos proteger. Mas, bem, segundo pesquisa Ibope/Instituto Patricia Galvão, 51% dos brasileiros dizem conhecer alguma mulher que é agredida por seu parceiro. No resto do mundo, em 40 a 70 por cento dos assassinatos de mulheres, o autor é o próprio marido ou companheiro.Este tipo de crime também aparece com frequência na mídia. No entanto, são tratados como crimes “passionais” – o que dá a errônea impressão de que homens e mulheres os cometem com a mesma frequência, já que a paixão é algo que acomete ambos os sexos. Tratam os homens autores destes crimes como “românticos” exagerados, príncipes encantados que foram longe demais. No entanto, são as mulheres as neuróticas nos filmes e novelas. São elas que “amam demais”, não os homens.
Mas a rosa também tem espinhos, o que a torna ainda mais simbólica dos mitos que o patriarcado atribuiu às mulheres. Somos ardilosas, traiçoeiras, manipuladoras, castradoras. Nós é que fomos nos meter com a serpente e tiramos o pobre Adão do paraíso (como se Eva lhe tivesse enfiado a maçã goela abaixo, como se ele não a tivesse comido de livre e espontânea vontade). Várias culturas têm a lenda da vagina dentata. Em Hollywood, as mulheres usam a “sedução” para prejudicar os homens e conseguir o que querem. Nos intervalos do canal Sony, os machos são de “respeito” e as mulheres têm “mentes perigosas”. A mensagem subliminar é: “cuidado, meninos, as mulheres são o capeta disfarçado”. E, foi com medo do capeta que a sociedade, ao longo dos séculos, prendeu as mulheres dentro de casa. Como se isso não fosse suficiente, limitaram seus movimentos com espartilhos, sapatos minúsculos (na China), saltos altos. Impediram-na que estudasse, que trabalhasse, que tivesse vida própria. Ela era uma propriedade do pai, depois do marido. Tinha sempre de estar sob a tutela de alguém, senão sua “mente perigosa” causaria coisas terríveis.
Mas dizem que a rosa serve para mostrar que, hoje, nos valorizam. Hoje, sim. Vivemos num mundo “pós-feminista” afinal. Todas essas discriminações acabaram! As mulheres votam e trabalham! Não há mais nada para conquistar! Será mesmo? Nos últimos anos, as diferenças salariais entre homens e mulheres (que seguem as mesmas profissões) têm crescido no Brasil, em vez de diminuir. Nos centros urbanos, onde a estrutura ocupacional é mais complexa, a disparidade tende a ser pior. Considerando que recebo menos para desempenhar o mesmo serviço, não parece irônico que o meu colega de trabalho me dê os parabéns por ser mulher?
Dizem que a rosa é um sinal de reconhecimento das nossas capacidades. Mas, no ranking de igualdade política do Fórum Econômico Mundial de 2008, o Brasil está em 10oº lugar entre 130 países. As mulheres têm 11% dos cargos ministeriais e 9% dos assentos no Congresso — onde, das 513 cadeiras, apenas 46 são ocupadas por elas. Do total de prefeitos eleitos no ano passado, apenas 9,08% são mulheres. E nós somos 52% da população.
A rosa também simboliza beleza. Ah, o sexo belo. Mas é só passar em frente a uma banca de revistas para descobrir que é exatamente o contrário. Você nunca está bonita o suficiente, bobinha. Não pode ser feliz enquanto não emagrecer. Não pode envelhecer. Não pode ter celulite (embora até bebês tenham furinhos na bunda). Você só terá valor quando for igual a uma modelo de 18 anos (as modelos têm 17 ou 18 anos até quando a propaganda é de creme rejuvenescedor…). Mas mesmo ela não é perfeita: tem de ser photoshopada. Sua pele é alterada a ponto de parecer de plástico: ela não tem espinhas nem estrias nem olheiras nem cicatrizes nem hematomas, nenhuma dessas coisas que a gente tem quando vive. Ela sorri, mas não tem linhas ao lado da boca. Faz cara de brava, mas sua testa não se franze. É magérrima (às vezes, anoréxica), mas não tem nenhum osso saltando. É a beleza impossível, mas você deve persegui-la mesmo assim, se quiser ser “feminina”. Porque, sim, feminilidade é isso: é “se cuidar”. Você não pode relaxar. Não pode se abandonar (em inglês, a expressão usada é exatamente esta: “let yourself go”). Usar uma porrada de cosméticos e fazer plásticas é a maneira (a única maneira, segundo os publicitários) de mostrar a si mesma e aos outros que você se ama. “Você se ama? Então corrija-se”. Por mais contraditória que pareça, é esta a mensagem.
Todo dia 8 de março, nos dão uma rosa como sinal de respeito. No entanto, a misoginia está em toda parte. Os anúncios e ensaios de moda glamurizam a violência contra a mulher. Nas propagandas de cerveja e programas humorísticos, as mulheres são bundas ambulantes, meros objetos sexuais. A pornografia mainstream (feita pela Hollywood pornô, uma indústira multibilionária) tem cada vez mais cenas de violência, estupro e simulação de atos sexuais feitos contra a vontade da mulher. Nos videogames, ganha pontos quem atropelar prostitutas.
Todo dia 8 de março, volto para casa e vejo um monte de mulheres com rosas vermelhas na mão, no metrô. É um sinal de cavalheirismo, dizem. Mas, no mesmo metrô, muitas mulheres são encoxadas todos os dias. Tanto que o Rio criou um vagão exclusivo para as mulheres, para que elas fujam de quem as assedia. Pois é, eles não punem os responsáveis. Acham difícil. Preferem isolar as vítimas. Enquanto não combatermos a idéia de que as mulheres que andam sozinhas por aí são “convidativas”, propriedade pública, isso nunca vai deixar de existir. Enquanto acharem que cantar uma mulher na rua é elogio , isso nunca vai deixar de existir. Atualmente, a propaganda da NET mostra um pinguim (?) dizendo “ê lá em casa” para uma enfermeira. Em outro comercial, o russo garoto-propaganda puxa três mulheres para perto de si, para que os telespectadores entendam que o “combo” da NET engloba três serviços. Aparentemente, temos de rir disso. Aparentemente, isso ajuda a vender TV por assinatura. Muito provavelmente, os publicitários criadores desta peça não sabem o que é andar pela rua sem ser interrompida por um completo desconhecido ameaçando “chupá-la todinha”.
Então, dá licença, mas eu dispenso esta rosa. Não preciso dela. Não a aceito. Não me sinto elogiada com ela. Não quero rosas. Eu quero igualdade de salários, mais representação política, mais respeito, menos violência e menos amarras. Eu quero, de fato, ser igual na sociedade. Eu quero, de fato, caminhar em direção a um mundo em que o feminismo não seja mais necessário.
…Enquanto isso não acontecer, meu querido, enfia esta rosa no dignissímo senhor seu cu."
sexta-feira, fevereiro 27, 2009
segunda-feira, dezembro 29, 2008
quinta-feira, novembro 27, 2008
sexta-feira, novembro 07, 2008
segunda-feira, setembro 29, 2008
quinta-feira, setembro 25, 2008
domingo, setembro 21, 2008
[while the crowd is waiting for the final kiss
the one which allows them to sleep well
we walk along the wrong path
the one which leed us to our own blessed
we need hints
before we get tired
but we need hints
before we get tired
now we need hints
before we loose pace
now we need a hint to know we're on the right track]
the one which allows them to sleep well
we walk along the wrong path
the one which leed us to our own blessed
we need hints
before we get tired
but we need hints
before we get tired
now we need hints
before we loose pace
now we need a hint to know we're on the right track]
quarta-feira, setembro 17, 2008
segunda-feira, setembro 15, 2008
O Vinícius (http://dizzyrock.blogspot.com/) escreveu, esta semana, um texto acerto-de-contas com o heavy metal em que comenta como rock é uma cultura, antropologicamente falando. Estou longe de discordar. Talvez, hoje, com meu olhar acadêmico (ta, chato, vai!), eu consiga concordar facilmente com seus argumentos. O problema não é que o rock, ou o metal, criem regras, normas, valores a serem seguidos por seus integrantes. Mais que isso, a questão é que os sentidos da vida no rock mudam, tanto para quem o vivencia(ou), quanto para quem entra em seus registros.
Marshall Sahlins, um antropólogo estadunidense, é um dos teóricos contemporâneos a apontar com propriedade que um dos problemas da Antropologia é ter dificuldade de trabalhar com duas variáveis ao mesmo tempo: símbolo (ou, melhor, significados) e história (ou mudança). Nós, na nossa vida cotidiana, provavelmente operemos com os mesmos problemas. Não enxergamos fases a partir da possibilidade de criação de um sentido de vida razoavelmente permanente, ou seja, que se torne ponto-chave da criação de personalidades (esta interação entre o mais íntimo do humano e mundo social). E se tudo isso parece não ter nexo com rock, esperem, que eu já chego lá.
Assim como Vinícius, iniciei minha vida no rock a partir do heavy metal. Eu e minhas amigas saímos para todos os shows que conseguíamos dinheiro para ir – na maior parte das vezes, o único dinheiro que precisávamos era o da passagem de ônibus, já que ou os shows eram de graça ou muito baratos. E nossa conexão, como grupo que compartilha experiências, das mais sublimes às mais conflituosas, foi criada a partir de um pilar essencial: não queríamos nos enquadrar, ser mais algumas no mundo. Não concordávamos com padronizações dos corpos, com o excessivo julgamento moral do exercício da sexualidade e, principalmente, queríamos nos destacar por nossas qualidades mais interessantes, e não por nossos “contatos” (e aqui, entendam desde as relações de quem indica no trabalho ou das ficadas ou trepadas que muitas meninas precisam passar para conseguir alguma coisa num mundo masculino).
Éramos, todas, filhas de famílias que vivem a opressão do feminino nas menores sutilezas (e, Júlia, eu também detesto estas sutilezas), passamos por decepções por fazermos parte deste mesmo mundo feminino e encontrávamos no rock a oportunidade de ser tudo aquilo que o mundo não nos apresentava possibilidade: ali, podíamos estar entre iguais. Até pouco tempo atrás, eu acreditei que o rock era a única forma de salvação de meninas da trágica vida de terem que se tornar frágeis, falar baixo, senão, calar a boca, não se expor, fingir que está tudo bem, e encarnar todos os estereótipos. Mas, como dizia acima, temos dificuldade de avaliar significados ao longo do tempo, em conjunto. Estagnada na minha boa visão de vida que o rock me proporcionou, só fui capaz de reelaborar minha perspectiva quando algo chamou minha atenção, e eu pude recortar o fluxo (Schutz ficaria orgulhoso!).
Ouvi um rumor de que meu sobrinho estava andando com os emos (tudo bem, é ruim, mas é rock) e estava se sentindo mal por um motivo: seus coleguinhas estavam criticando-o por não “pegar meninos”. E aí, caiu a ficha: o rock muda. Se quando meu sobrinho e meu irmão passaram a ouvir metal eu fiquei super feliz, quando ouvi essa história, ah!, meu apreço pelo rock foi [quase] por água abaixo. E como em toda cultura, ruptura de sentido gera experiência do absurdo e necessidade de renovação de significados. Passei a (re)pensar o que significa ser roqueiro para essa geração muito próxima à minha e cheguei à seguinte conclusão: talvez, somente algumas pessoas consigam usar o rock para a criação de uma existência menos cruel. Para outras, talvez, e só talvez, o rock seja só mais uma coleção de normas, fingidas de não regras, de como se comportar no mundo. Gosto de me enquadrar no primeiro grupo, acreditando que os significados são plásticos e que todos podem se encontrar em algum momento no rock como liberdade.
Mas, nem aí tenho certeza: talvez eu seja só uma vira-casaca.
Marshall Sahlins, um antropólogo estadunidense, é um dos teóricos contemporâneos a apontar com propriedade que um dos problemas da Antropologia é ter dificuldade de trabalhar com duas variáveis ao mesmo tempo: símbolo (ou, melhor, significados) e história (ou mudança). Nós, na nossa vida cotidiana, provavelmente operemos com os mesmos problemas. Não enxergamos fases a partir da possibilidade de criação de um sentido de vida razoavelmente permanente, ou seja, que se torne ponto-chave da criação de personalidades (esta interação entre o mais íntimo do humano e mundo social). E se tudo isso parece não ter nexo com rock, esperem, que eu já chego lá.
Assim como Vinícius, iniciei minha vida no rock a partir do heavy metal. Eu e minhas amigas saímos para todos os shows que conseguíamos dinheiro para ir – na maior parte das vezes, o único dinheiro que precisávamos era o da passagem de ônibus, já que ou os shows eram de graça ou muito baratos. E nossa conexão, como grupo que compartilha experiências, das mais sublimes às mais conflituosas, foi criada a partir de um pilar essencial: não queríamos nos enquadrar, ser mais algumas no mundo. Não concordávamos com padronizações dos corpos, com o excessivo julgamento moral do exercício da sexualidade e, principalmente, queríamos nos destacar por nossas qualidades mais interessantes, e não por nossos “contatos” (e aqui, entendam desde as relações de quem indica no trabalho ou das ficadas ou trepadas que muitas meninas precisam passar para conseguir alguma coisa num mundo masculino).
Éramos, todas, filhas de famílias que vivem a opressão do feminino nas menores sutilezas (e, Júlia, eu também detesto estas sutilezas), passamos por decepções por fazermos parte deste mesmo mundo feminino e encontrávamos no rock a oportunidade de ser tudo aquilo que o mundo não nos apresentava possibilidade: ali, podíamos estar entre iguais. Até pouco tempo atrás, eu acreditei que o rock era a única forma de salvação de meninas da trágica vida de terem que se tornar frágeis, falar baixo, senão, calar a boca, não se expor, fingir que está tudo bem, e encarnar todos os estereótipos. Mas, como dizia acima, temos dificuldade de avaliar significados ao longo do tempo, em conjunto. Estagnada na minha boa visão de vida que o rock me proporcionou, só fui capaz de reelaborar minha perspectiva quando algo chamou minha atenção, e eu pude recortar o fluxo (Schutz ficaria orgulhoso!).
Ouvi um rumor de que meu sobrinho estava andando com os emos (tudo bem, é ruim, mas é rock) e estava se sentindo mal por um motivo: seus coleguinhas estavam criticando-o por não “pegar meninos”. E aí, caiu a ficha: o rock muda. Se quando meu sobrinho e meu irmão passaram a ouvir metal eu fiquei super feliz, quando ouvi essa história, ah!, meu apreço pelo rock foi [quase] por água abaixo. E como em toda cultura, ruptura de sentido gera experiência do absurdo e necessidade de renovação de significados. Passei a (re)pensar o que significa ser roqueiro para essa geração muito próxima à minha e cheguei à seguinte conclusão: talvez, somente algumas pessoas consigam usar o rock para a criação de uma existência menos cruel. Para outras, talvez, e só talvez, o rock seja só mais uma coleção de normas, fingidas de não regras, de como se comportar no mundo. Gosto de me enquadrar no primeiro grupo, acreditando que os significados são plásticos e que todos podem se encontrar em algum momento no rock como liberdade.
Mas, nem aí tenho certeza: talvez eu seja só uma vira-casaca.
